A filantropia hospitalar tem se consolidado como um importante vetor de inovação, acesso e qualidade no sistema de saúde brasileiro. Para aprofundar essa discussão, a Ahfip conversou neste mês com Denise Santos, CEO da BP, sobre iniciativas que geram impacto direto na vida dos pacientes, avanços em gestão impulsionados pela atuação em rede e as perspectivas para o futuro da saúde.
Na entrevista, a executiva destaca projetos que conectam tecnologia e cuidado, a importância da colaboração entre instituições filantrópicas e o papel estratégico da educação e da inovação na transformação do setor.
Quais projetos ou cases a BP poderia destacar relacionados ao impacto da filantropia na comunidade assistida?
Na BP, entendemos a filantropia como uma forma estruturada de ampliar acesso, qualificar o cuidado e gerar impacto duradouro para além dos nossos muros. Um exemplo muito representativo é o Open Care 5G, projeto implantado em Miguel Alves, no Piauí, que conecta profissionais locais a especialistas da BP por meio de telediagnóstico por imagem com suporte de rede 5G. O resultado mais visível é o efeito na vida das pessoas: redução de 86% no tempo de espera para ecocardiografia, manutenção de 100% de ocupação da agenda e NPS 100, além da capacitação das equipes locais e da geração de evidências que podem orientar políticas públicas. Isso traduz bem a visão da Ahfip de unir inovação, responsabilidade social e ampliação do acesso à saúde de qualidade.
Outro case muito forte é o conjunto de iniciativas da BP no PROADI-SUS, que leva inovação, capacitação e apoio técnico especializado à saúde pública brasileira. Nessa frente, vale destacar também o Projeto Boas Práticas, maior projeto de tele-ECG via PROADI-SUS, que já ultrapassou um milhão de laudos realizados, apoiando 855 UPAs em todo o País, 24 horas por dia, 7 dias por semana. É um exemplo claro de como a filantropia hospitalar pode combinar assistência, ciência, escala e eficiência.
Também destacaria o projeto Cardio4Cities, iniciativa voltada ao fortalecimento da atenção primária por meio da prevenção, rastreamento, diagnóstico, adesão ao tratamento e controle de condições crônicas, com foco em risco cardiovascular. Essa é uma boa tradução da filantropia: gerar soluções sustentáveis para o cuidado, apoiar políticas públicas e reduzir complicações e mortes evitáveis.
Que avanços em gestão foram impulsionados por iniciativas com apoio da Ahfip?
A principal contribuição da Ahfip, na nossa visão, está em criar um ambiente muito qualificado de colaboração técnica entre instituições que compartilham valores semelhantes, mas preservam sua autonomia. Isso tem ajudado a impulsionar avanços de gestão sobretudo em áreas em que o setor ganha muito quando troca boas práticas com governança, método e compliance. A própria Ahfip estrutura essa atuação por meio de grupos de trabalho dedicados a qualidade e segurança, suprimentos, tecnologia e inovação, engenharia clínica, infraestrutura, ensino e pesquisa e filantropia, o que favorece uma agenda de melhoria contínua bastante concreta.
Do ponto de vista mais objetivo, eu diria que os avanços aparecem em três frentes. A primeira é a padronização e comparabilidade de indicadores, especialmente em qualidade e segurança, algo importante para elevar a régua assistencial. A segunda é a troca estruturada de benchmarks operacionais, com uso de plataformas e terceiros independentes para tratamento de dados agregados, sempre dentro de regras rígidas de compliance. E a terceira é a construção de referenciais técnicos comuns, por exemplo para insumos, tecnologias, processos e segurança da informação, o que fortalece a tomada de decisão de cada hospital.
Quando uma associação reúne hospitais com forte compromisso com excelência, reinvestimento e ciência, e cria mecanismos de troca segura sobre eficiência, qualidade e sustentabilidade, ela acelera aprendizados que dificilmente aconteceriam com a mesma velocidade de forma isolada.
Há algum projeto recente ou futuro que gostaria de destacar?
Um marco muito importante para nós foi a consolidação da Faculdade BP e a ampliação do nosso papel na formação de profissionais para a saúde. Já iniciamos os cursos de Enfermagem, Psicologia e Gestão Hospitalar, e recentemente conquistamos a autorização do curso de Medicina pelo Ministério da Educação. O processo seletivo está previsto para outubro deste ano, com início das aulas em janeiro de 2027. Esse movimento representa a evolução natural de uma instituição com 166 anos de história dedicada ao cuidado, à excelência e ao desenvolvimento de pessoas. Sempre tivemos a educação como parte do nosso DNA, por meio de residências, especializações e programas de formação continuada, e agora ampliamos esse legado com uma estrutura acadêmica ainda mais robusta. A Faculdade BP nasce integrada a um ecossistema real de saúde, conectando assistência, pesquisa, ensino e relação com o SUS. Isso permite uma formação próxima da prática, multidisciplinar e alinhada aos desafios contemporâneos do setor. Olhando para frente, acreditamos cada vez mais na força da integração entre educação, ciência, inovação e cuidado. Formar profissionais preparados, humanos e tecnicamente consistentes também é uma forma de transformar o futuro da saúde no Brasil.